RESENHA ONOMATOPEIA: BICHO BOM

 

[Resenha] Bicho Bom

Com roteiro de Beto Potyguara, arte de Yuri Pablo e capa de May Santos, Bicho Bom é uma distopia que mistura humor, crítica social e sátira de gênero. Em um futuro devastado por sucessivas pandemias e pela cisão entre elites econômicas e os chamados “párias”, a humanidade foi drasticamente reduzida. A história se passa em Nordesterra, último reduto habitável, onde emergiram feras evoluídas de aparência humanoide que passaram a rivalizar com os remanescentes humanos.

Bicho Bom é uma distopia de traço expressivo que mistura humor, sátira e crítica social.

É nesse cenário que acompanhamos a tenente Izabel (Bell) Dadivosa, apresentada vacinando uma criança quando uma explosão abala a frágil sensação de ordem.Ao despertar entre destroços, com um soldado sobre si e seus atributos físicos expostos pelas roupas rasgadas, Bell ouve o alerta: “os bichos chegaram”. O embate que se segue subverte expectativas. O soldado Hashtag mira o leão Champignon, líder animal, e seu filho, mas é impedido pela própria tenente.

Quando o pequeno leão, intrigado com os cabelos loiros da militar, pergunta que bicho é aquele, o pai responde: “Aquele, meu filho… é um bicho bom.” A frase que dá título à HQ ecoa como ironia e crítica. Não apenas pela ambiguidade moral entre humanos e feras, mas também pela carga sexista historicamente associada à expressão.

Na sequência, o disparo de um lança-mísseis derruba o helicóptero de Bell e culmina em mortes de militares. A derrota recai sobre ela. Mulher, loira, de olhos verdes, curvas voluptuosas (e filha de um importante general), Dadivosa é alvo de insultos que misturam misoginia e um julgamento estereótipado. O roteiro acerta ao não negar essa objetificação: ele a expõe para usá-la como elemento de tensão. A protagonista, embora visualmente construída com ênfase em seus atributos, não se define por eles. Ao contrário, a narrativa os utiliza como espelho crítico da própria tradição dos quadrinhos, onde corpos femininos servem frequentemente de apelo superficial.

A arte estilizada e vibrante de Yuri Pablo reforça essa leitura. Há um capricho nas formas e curvas da protagonista, mas o que poderia soar como fetichização transforma-se em sátira consciente.

Bicho Bom funciona como prólogo de uma saga maior. Apresenta mundo, tensões, dilemas éticos e, sobretudo, a índole de sua protagonista, como alguém capaz de enxergar humanidade onde outros veem ameaça. O desfecho em aberto deixa o leitor em suspensão, preparando terreno para conflitos mais amplos.

Complementando a edição, As Crônicas de Animália, também de Potyguara e Yuri Pablo, amplia o escopo ao acompanhar Hot, um cachorro perdigueiro humanoide trajando sobretudo, distintivo policial, câmera fotográfica e chapéu de detetive. Carregando memórias de quando era apenas um animal de estimação e moldado pelos gostos do antigo humano, ele busca identidade em meio ao caos.

Diante do “Pai Macaco”, uma figura vestida como Elvis Presley e detentor do poder de nomear os outros animais, o cão pede para se chamar Sherlock. O pedido vira piada e ele recebe o nome de “Hot Dog”. A recusa, que poderia ser humilhação definitiva, torna-se motivação. Ele segue firme em seu propósito de mapear o mundo, encontrando aliados como a onça Kenga, o coelho Tapioca e o rinoceronte Mocotó, um grupo diverso que o reconhece e valoriza.

Se Bicho Bom traz conflito militar e crítica de gênero, As Crônicas de Animália é uma jornada por identidade em um mundo que quer nos rotular, com pitadas de humor e melancolia. As duas frentes se complementam como espelhos de uma mesma distopia, sugerindo cruzamentos futuros entre humanos e feras, não apenas como inimigos, mas como sujeitos atravessados pelas mesmas fragilidades.

No fim, o que Potyguara e Yuri Pablo constroem é um universo em que o termo “bicho” deixa de ser insulto ou hierarquia e passa a ser condição compartilhada. Reconhecendo que, em tempos de ruína, humanidade e animalidade são fronteiras menos fixas do que gostaríamos de admitir.

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