RESENHA ONOMATOPEIA: EXTRAORDINARIAMENTE NOTÁVEIS

 

[Resenha] Extraordinariamente Notáveis nº1

A proposta de Extraordinariamente Notáveis nº 1 (2026), com roteiro de Beto Potyguara e arte de Wolclenes Freitas e Anderson Gomes, parte da ideia tão ambiciosa quanto instigante de reimaginar figuras históricas brasileiras como integrantes de uma sociedade secreta que atua nos bastidores para moldar os rumos do país. O conceito, assim como a própria equipe, já havia dado as caras em Os Notáveis e Outras Histórias (2011), mas aqui ganha escopo para se estruturar como algo maior.

Extraordinariamente Notáveis nº 1 articula figuras históricas em uma trama de aventura e conspiração.

A chamada “Ordem do Picapau Amarelo” reúne nomes como Ruy Barbosa, Cândido Rondon, Santos Dumont, Osvaldo Cruz e Luís Carlos Prestes, figuras transformadas em uma espécie de “Liga Extraordinária” à brasileira. Esse conceito já estabelece o principal charme da HQ: o encontro improvável entre história, ficção, humor e aventura.

A narrativa se inicia em 1860, no litoral do Rio Grande do Norte, com a queda de um objeto voador não identificado, um elemento que injeta imediatamente um tom de mistério e ficção científica à trama, mas que a princípio não é explorado. A partir daí, a história avança para 1925, em Foz do Iguaçu, onde o fio condutor passa a ser o General Cândido Rondon. Ele funciona como ponto de entrada para o leitor, sendo gradualmente inserido na missão de impedir que o explorador britânico Percy Fawcett alcance Muribeca, uma versão brasileira do mito de El Dorado, cuja descoberta carrega um risco que o roteiro não deixa claro.

É justamente nesse embate que a HQ estrutura sua dinâmica entre heróis e antagonistas. De um lado, a Ordem, com seus ideais de proteção e controle do destino nacional; do outro, Fawcett, disposto a ultrapassar limites éticos e morais para alcançar seu objetivo e, cuja busca obsessiva pela cidade perdida está ligada a Rondon de alguma forma.

O roteiro expõe uma sensação de equipe disfuncional cujos membros estão ali não apenas por escolha, mas por uma espécie de dívida histórica ou “espiritual”. Há tensões internas, especialmente na resistência inicial de Rondon em aceitar a missão e em sua rivalidade com Prestes, o que ajuda a humanizar personagens ainda que sejam retratados de forma caricatural. Aliado a isso, a apresentação breve de figuras como Antônio Conselheiro e Zumbi dos Palmares adiciona uma camada quase mística.

Visualmente, a HQ aposta em um traço de viés mais cômico e expressivo, que contrasta de forma interessante com o peso histórico dos personagens. Essa escolha funciona ao tornar a leitura mais leve e dinâmica, e funciona bem na caracterização dos personagens, cumprindo bem o papel de dar identidade à cada membro da equipe e diferenciá-los com traços bem definidos.

Como primeiro número, a edição se preocupa mais em montar o tabuleiro e apresentar suas peças do que em concluir sua partida. A narrativa avança de forma consistente, apresentando conceitos, conflitos e personagens, mas encerra antes de atingir um clímax. Em vez disso, aposta em deixar para sua continuação a resolução do conflito e, assume o papel de despertar curiosidade para que o leitor queira acompanhar o próximo capítulo.

No fim, Extraordinariamente Notáveis nº 1 se destaca pela criatividade de sua premissa e pela forma como articula figuras históricas em uma trama de aventura e conspiração. Ainda que funcione mais como introdução, já demonstra potencial para desenvolver um universo rico, onde heróis e “vilões” não são apenas opostos, mas peças de um mesmo jogo histórico cheio de ambiguidades e onde o destino do país está em xeque.

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